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PS4: O Novo Play 2?

Poucos consoles tiveram uma cena de hacking tão longa e disputada quanto o PlayStation 4. Entre o primeiro exploit confirmado, no fim de 2015, e os relatos mais recentes de pesquisadores anunciando brechas em firmwares atuais, o PS4 acumulou mais de uma década de “corrida armamentista” entre a Sony e um grupo relativamente pequeno de hackers e pesquisadores de segurança. Este dossiê reconstrói essa história: quem fez o quê, quando, e as curiosidades que marcaram cada capítulo.

Antes de entrar na linha do tempo, vale uma distinção que a própria cena sempre fez questão de reforçar: jailbreak não é sinônimo de pirataria. Tecnicamente, um jailbreak de PS4 é a combinação de dois exploits — um de userland (geralmente via WebKit, o motor do navegador do console) que abre a primeira porta, e um de kernel, que dá controle total do sistema (“ring 0”). O que se faz depois disso é que determina se o uso é homebrew, emulação, pesquisa ou pirataria.


2013–2015: o console “inquebrável” e os primeiros sinais

O PS4 foi lançado em novembro de 2013 com uma arquitetura baseada em FreeBSD, considerada bem mais robusta que a do PS3. Por quase dois anos, nenhum grupo público conseguiu provar uma falha de kernel — o que alimentou uma narrativa de que a Sony havia “aprendido a lição” com o PS3.

Isso mudou em dezembro de 2015. O grupo Fail0verflow — coletivo conhecido por ter quebrado o PS3 em 2010/2011 — apresentou na Chaos Communication Congress (CCC), na Alemanha, uma demonstração rodando Linux no PS4. Praticamente na mesma época, o hacker independente CTurt publicou os detalhes técnicos de um exploit de kernel batizado “BadIRET”, funcional na firmware 1.76, a mais antiga do console.

Curiosidade: CTurt demonstrou o exploit mostrando o diretório raiz e os processos do PS4 rodando em memória — praticamente provando o feito sem entregar o “ouro” de imediato. Só depois vieram os detalhes técnicos completos, publicados em conjunto com o hacker qwertyoruiop, revelando um segundo exploit, o dlclose. Dias depois, as contas do GitHub de desenvolvedores da cena foram comprometidas e o código do BadIRET vazou publicamente antes do previsto — um dos primeiros “vazamentos hostis” da história do PS4.


2016–2017: o Fail0verflow mostra o caminho, a cena avança devagar

Ao longo de 2016, a Fail0verflow voltou a demonstrar Linux rodando no PS4, agora em firmware 4.0x, mas sem liberar o jailbreak em si — só o código do kernel Linux adaptado. Nesse meio tempo, hackers chineses mostraram, na convenção GeekPwn de Pequim, um exploit funcional em firmware 4.01.

Foi só no fim de 2017 que a cena teve seu primeiro grande “produto pronto para uso”. O pesquisador SpecterDev liberou a implementação completa do exploit de kernel “namedobj”, batizando a ferramenta com humor natalino: o lançamento saiu em 27 de dezembro de 2017, quase dois meses depois de a Fail0verflow revelar os detalhes técnicos da vulnerabilidade. Foi apelidado informalmente de “presente de Natal” pela comunidade.

Curiosidade: o próprio SpecterDev deixou claro no README do projeto que o código não incluía nada relacionado a burlar proteções antipirataria — apenas a execução de código arbitrário em nível de kernel. Essa separação entre “prova de conceito” e “ferramenta de pirataria” se tornaria uma marca registrada da cena legítima de jailbreak.


2018: o ano de ouro — 4.55 e 5.05

2018 é considerado por muitos entusiastas o auge da cena PS4. Em fevereiro, SpecterDev lançou a implementação completa do jailbreak para firmware 4.55. Três meses depois, em 28 de maio de 2018, veio o que ficou conhecido como a “firmware de ouro”: o exploit para a 5.05 (e, por extensão, a raríssima 5.07).

Esse exploit usava uma falha de “double free” no BPF (Berkeley Packet Filter), descoberta por qwertyoruiopz e implementada por SpecterDev, incluindo lançamento automático dos payloads Mira e HEN (Homebrew ENabler) desenvolvido por Vortex/XVortex.

Curiosidade: a tela de exploração bem-sucedida do 5.05 ficou famosa por conter avisos de “warning” com tom bem-humorado, criados por qwertyoruiopz — um contraste com a seriedade técnica do resto do código. Até hoje, a firmware 5.05 é citada como referência de estabilidade entre quem busca um PS4 usado para fins de homebrew.


2020: o “deserto” da 6.20 e a virada da 6.72

Depois do pico de 2018, a cena esfriou. Firmwares 6.x pareciam impenetráveis por quase dois anos — o suficiente para a comunidade apelidar o período de “deserto do PS4”. A virada começou quando o pesquisador theflow0 (TheFloW), do Google Project Zero, anunciou publicamente ter encontrado uma nova vulnerabilidade na firmware 6.20.

Pouco depois, em 17 de julho de 2020, o hacker Sleirsgoevy lançou o jailbreak completo para a firmware 6.72, reaproveitando parte do trabalho de TheFloW. Esse exploit se tornaria, ao lado do 5.05, uma das “firmwares douradas” mais recomendadas para quem monta um PS4 dedicado a homebrew.


2020–2022: TheFloW dá as cartas, GoldHEN nasce

A partir daí, TheFloW se consolidou como o hacker mais prolífico da cena. Em janeiro de 2020, ele já havia divulgado um exploit de kernel funcional até a firmware 7.02 (posteriormente corrigido na 7.50) mediante um programa de recompensas (bug bounty). Em 2021, surgiu o jailbreak para 7.50/7.55, com o custom firmware Mira atualizado para suportá-lo.

Com o avanço das versões, nasceu o GoldHEN, hoje o “Homebrew ENabler” padrão da cena, cobrindo de forma unificada firmwares como 5.05, 6.72 e a faixa de 7.00 a 9.60 — substituindo gradualmente ferramentas mais antigas como o Mira.

Curiosidade: a lista de “contribuidores” que circula nos fóruns da cena (GBAtemp, PSX-Place, PSXHAX) inclui nomes recorrentes como Specter, IDC, qwertyoruiopz, Flatz, CTurt, XVortex, Al-Azif e dezenas de colaboradores anônimos — um retrato de como o jailbreak de PS4 nunca foi obra de uma pessoa só, mas de uma rede internacional e informal.


2022–2024: PPPwn, a era “sem WebKit” e a virada para o PS5

Um marco técnico importante veio com o PPPwn, exploit que ataca o protocolo PPPoE (usado em conexões discadas/DSL) em vez do navegador — permitindo jailbreak sem depender de falhas de WebKit, que a Sony vinha corrigindo cada vez mais rápido. Ele cobre a faixa de firmwares 10.00 a 11.00 e é considerado “manhoso” de usar, mas foi essencial para manter viva a cena em versões mais recentes.

Em maio de 2024, o mesmo TheFloW anunciou, na conferência de segurança ofensiva TyphoonCon, em Seul, uma palestra sobre uma vulnerabilidade remota de kernel (relacionada à CVE-2006-4304, no protocolo SPP) afetando PS4 até a firmware 11.00 e PS5 até a 8.20 — notável por, em teoria, permitir jailbreak sem exigir nenhum ponto de entrada do usuário, como um WebKit ou app.

Também nesse período ganhou notoriedade o exploit Mast1c0re, que não é tecnicamente um jailbreak de kernel: ele explora uma falha em jogos de PS2 remasterizados (como Okage: Shadow King) para rodar isos e homebrews de PS2 dentro do emulador do PS4, funcionando em praticamente qualquer firmware, incluindo as mais recentes.


2025–2026: a cena segue viva, agora também no PS5

Diferentemente do PS3, cujo jailbreak “morreu” com o fim de vida do console, o PS4 segue recebendo atenção de pesquisadores mesmo mais de uma década após o lançamento. Em 2026, um hacker que se identifica como Gezine anunciou publicamente ter descoberto um exploit de kernel zero-day afetando tanto PS4 quanto PS5, após cerca de um ano e meio de pesquisa dedicada. Até a divulgação, o exploit não havia sido lançado publicamente — um comportamento comum entre pesquisadores de segurança, que preferem reportar falhas críticas via programas de bug bounty ou preservar o valor da descoberta em vez de liberá-la de imediato para uso em massa.

Atualmente, a cena considera firmwares de PS4 até a 13.00 como as mais recentes ainda sujeitas a algum tipo de exploração pública (dependendo do modelo e caminho de atualização), enquanto qualquer coisa acima disso permanece, até o momento, sem solução conhecida.


Linha do tempo resumida

AnoFirmwareResponsávelMarco
20151.76CTurt / Fail0verflowPrimeiro exploit de kernel confirmado (BadIRET)
20164.0x/4.01Fail0verflow / hackers chinesesLinux rodando no PS4; exploit em convenção GeekPwn
20174.05SpecterDevExploit “namedobj” liberado publicamente
20184.55SpecterDevJailbreak completo implementado
20185.05/5.07SpecterDev / qwertyoruiopzA “firmware de ouro”; nasce o HEN
20206.20/6.72TheFloW / SleirsgoevyFim do “deserto”; nova firmware de referência
20217.02–7.55TheFloWExploit via bug bounty; Mira atualizado
2022–249.00–11.00Diversos / TheFloWGoldHEN se consolida; nasce o PPPwn
2024até 11.00TheFloW (Andy Nguyen)RCE remoto sem WebKit apresentado em conferência
2026firmwares recentesGezineExploit de kernel zero-day anunciado, sem lançamento público

Por que essa história importa

Para além da nostalgia, o caso do PS4 é um estudo de caso interessante sobre segurança de sistemas fechados: mostra como uma única vulnerabilidade de navegador pode abrir a porta para o controle total de um hardware vendido por dezenas de milhões de unidades, e como uma comunidade descentralizada — sem financiamento corporativo, coordenando-se por Twitter/X e fóruns — conseguiu sustentar esforço de pesquisa por mais de dez anos seguidos.

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